
Nem todas as provas são para dar tudo: como usar corridas no treino sem transformar cada dorsal num PB
Inscrever-se numa prova costuma trazer uma ideia quase automática: se há dorsal, é para correr o mais rápido possível.
PB. Melhor ritmo. Melhor classificação. Dar tudo.
Mas nem sempre tem de ser assim.
Uma prova pode ser o grande objetivo de vários meses de preparação, claro. Mas também pode servir para testar um ritmo, experimentar uma estratégia de alimentação, ganhar confiança, fazer um treino de qualidade num ambiente diferente ou simplesmente voltar a sentir o prazer de estar numa linha de partida.
E perceber essa diferença pode ajudar-te não só a correr melhor, mas também a construir um calendário de provas muito mais sustentável.
O problema de tratar todas as provas como “a prova”
Quando cada linha de partida se transforma num teste máximo, o calendário começa a cobrar a conta.
Uma meia maratona feita no limite não é simplesmente um treino longo com dorsal. Mesmo um 5 ou 10 km corrido a esforço máximo pode exigir alguns dias de recuperação.
Se estás constantemente a competir no máximo, torna-se difícil criar consistência entre provas.
Acabas por entrar num ciclo de recuperar da última corrida, tentar voltar ao treino, reduzir novamente a carga porque já se aproxima outro dorsal e repetir tudo de novo.
Há muitas provas no calendário, mas pouco espaço para realmente evoluir.
Decide quais são as provas que importam mesmo
Nem todas as inscrições precisam de ter o mesmo peso.
Uma boa estratégia é escolher antecipadamente uma ou duas provas principais para determinado período da época.
Pode ser a primeira meia maratona. A tentativa de baixar dos 50 minutos aos 10 km. Uma maratona preparada durante meses. Ou simplesmente uma corrida que tem um significado especial para ti.
São essas provas que justificam organizar o treino em função da data, reduzir a carga nos dias anteriores e chegar à partida preparado para dar o máximo.
As outras podem ter papéis diferentes.
Uma prova também pode ser um excelente treino
Há coisas que nenhum treino consegue reproduzir completamente.
O despertador mais cedo. O pequeno-almoço antes da prova. O nervosismo. A espera na zona de partida. A vontade de acelerar quando centenas de pessoas começam a correr ao mesmo tempo.
Tudo isso também se treina.
Uma prova secundária pode ser uma excelente oportunidade para experimentar a estratégia que pretendes usar no teu objetivo principal.
Podes, por exemplo, usar um 10 km durante a preparação para uma meia maratona. Começar controlado e terminar progressivamente. Testar o pequeno-almoço. Experimentar um gel. Correr determinado número de quilómetros ao ritmo de prova.
Ou simplesmente treinar uma das capacidades mais difíceis de todas: não sair demasiado rápido quando toda a gente à tua volta o faz.
Nesse contexto, o tempo final deixa de ser o único indicador de sucesso.
Já sabes qual pode ser a próxima prova do teu calendário?
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Nem sempre precisas de correr para um PB
Existe uma tendência para medir todas as provas através do resultado.
Mas há muitas outras razões perfeitamente válidas para colocar um dorsal.
Talvez os teus amigos estejam todos inscritos numa corrida. Talvez exista uma prova numa cidade que queres conhecer. Talvez gostes particularmente daquele percurso. Talvez seja uma corrida local que fazes todos os anos.
Ou talvez simplesmente te apeteça competir.
Nem tudo precisa de ser otimizado.
E, curiosamente, quando retiramos a pressão do relógio, voltamos muitas vezes a reparar em coisas que desaparecem quando estamos completamente focados no pace: o público, o percurso, as pessoas com quem estamos a correr e o próprio ambiente do evento.
Usa provas mais curtas durante a preparação
Uma prova também pode encaixar dentro de um objetivo maior.
Se estás a preparar uma meia maratona, um 5K ou 10K algumas semanas antes pode ajudar-te a testar velocidade e perceber como está a forma.
Se estás a preparar uma maratona, uma meia maratona pode funcionar como teste de ritmo, estratégia de hidratação ou alimentação.
Isso não significa necessariamente correr a prova secundária no limite.
O objetivo pode ser sair da linha de chegada com informação útil para a prova que realmente importa.
Decide o objetivo antes de chegar à partida
Antes de cada corrida, faz uma pergunta simples:
O que quero retirar desta prova?
A resposta pode ser:
- tentar um PB;
- testar um determinado ritmo;
- fazer um treino longo acompanhado;
- experimentar uma estratégia de alimentação ou hidratação;
- correr com amigos;
- ganhar experiência numa determinada distância;
- voltar a competir depois de uma pausa;
- simplesmente aproveitar a corrida.
O importante é decidir antes.
Porque é muito fácil chegar à partida com a intenção de “ir tranquilo” e, cinco minutos depois, estar a perseguir uma pessoa que nunca viste na vida porque, aparentemente, surgiu uma rivalidade pessoal entre vocês.
Também precisas de espaço entre dorsais
Ter muitas provas disponíveis não significa que tenhas de preencher todos os fins de semana.
O espaço entre competições é onde grande parte da evolução acontece.
É aí que consegues voltar a acumular semanas consistentes de treino, trabalhar pontos fracos e adaptar o corpo ao estímulo anterior.
Por isso, ao construíres o calendário, olha não apenas para as provas que queres fazer, mas também para o tempo que existe entre elas.
Às vezes, dizer “não” a uma corrida interessante é precisamente o que permite chegar melhor à seguinte.
O teu calendário não precisa de ser uma coleção de PBs
Uma boa época de corrida não é necessariamente aquela em que fizeste mais provas ou bateste mais recordes.
Pode ser aquela em que aprendeste a competir melhor.
Em que escolheste os momentos certos para acelerar e os momentos certos para simplesmente participar.
Em que algumas provas serviram para testar o corpo, outras para testar a cabeça e algumas existiram apenas porque correr naquele lugar parecia uma excelente ideia.
Nem todas as datas precisam de ser o grande objetivo da época.
Algumas são simplesmente parte do caminho até lá.
E outras podem existir apenas porque queres voltar a colocar um dorsal.
Agora só falta escolher a próxima linha de partida.
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Nem todos os dorsais precisam de acabar num PB. Mas todos podem ter um propósito.