Gravel, Granfondos e BTT: o que está a marcar o ciclismo em Portugal neste outono

Paula Veloso
by Paula Veloso
Há 2 meses

Durante muito tempo, escolher uma prova de ciclismo parecia relativamente simples: estrada ou BTT. Em 2026, o calendário português conta uma história bastante diferente.

Os granfondos continuam a ocupar um espaço importante entre os ciclistas amadores, mas o gravel está a ganhar uma presença cada vez mais difícil de ignorar. Ao mesmo tempo, surgem mais eventos que misturam competição com aventura, navegação por GPS, diferentes superfícies e experiências que começam antes da partida e não terminam necessariamente quando se cruza a meta.

Basta olhar para os próximos meses. A Federação Portuguesa de Ciclismo tem no calendário uma Taça de Portugal de Gravel a 12 e 13 de setembro, o Campeonato Nacional de Gravel a 20 de setembro, vários granfondos e provas de resistência BTT, enquanto outubro traz eventos dedicados exclusivamente ao gravel e formatos por etapas.

Para quem está à procura do próximo desafio sobre duas rodas, estas são algumas das tendências — e provas — que vale a pena acompanhar.

O gravel deixou de ser apenas a alternativa entre estrada e BTT

Se há uma tendência particularmente evidente no calendário de 2026, é o crescimento do gravel.

A disciplina ocupa um espaço intermédio muito interessante. Permite sair do trânsito e explorar estradas rurais e caminhos de terra, mas normalmente sem exigir o mesmo nível técnico de alguns percursos de BTT. Ao mesmo tempo, mantém grande parte da componente de resistência e velocidade do ciclismo de estrada.

Em Portugal, setembro e outubro oferecem vários exemplos dessa evolução. O calendário federativo inclui a Taça de Portugal e o Campeonato Nacional de Gravel, enquanto o RaceFinder apresenta atualmente nove eventos associados à modalidade entre setembro e outubro.

Um dos exemplos mais interessantes é a I Ultra Maratona BTT/Gravel do Sor, a 19 de setembro, em Ponte de Sor. São cerca de 120 km e 1.500 metros de desnível positivo, com categorias de BTT, gravel e e-bike. O percurso utiliza navegação por GPS em vez de marcação tradicional com fitas, algo que acrescenta uma componente de autonomia e gestão de percurso ao desafio.

Para quem vem da estrada e quer experimentar gravel, a principal preparação não deve ser simplesmente “andar mais quilómetros”. Vale a pena treinar em diferentes tipos de piso, testar a pressão dos pneus, habituar-se a controlar a bicicleta em terreno solto e, sobretudo, aprender a resolver pequenos problemas mecânicos sem depender imediatamente de assistência.

O granfondo continua a ser uma das grandes portas de entrada para competir em estrada

O crescimento do gravel não significa que o granfondo esteja a perder espaço. Pelo contrário: o calendário português de final de verão e outono continua cheio de oportunidades.

A própria Volta a Portugal lançou em 2026 A Grandíssima, o Granfondo oficial da prova, pensado para permitir que ciclistas amadores vivam uma experiência associada à maior competição velocipédica nacional. É um bom sinal de como este formato se tornou parte central do ciclismo de participação em Portugal.

E há várias opções ainda pela frente.

O Lousã Granfondo, a 13 de setembro, apresenta formatos Granfondo, Mediofondo e Minifondo, permitindo que ciclistas com diferentes níveis de preparação participem no mesmo evento.

Uma semana depois, o Monção e Melgaço Granfondo, a 20 de setembro, oferece 130 km, 100 km e 60 km. O evento tem um limite total de 1.300 participantes e inclui cronometragem por chip, abastecimentos e assistência mecânica ao longo do percurso.

No sul, o Tavira Granfondo, a 27 de setembro, apresenta aproximadamente 130 km no Granfondo e 80 km no Mediofondo.

E já em outubro, o Ourém Fátima Granfondo, no dia 18, volta a oferecer três níveis bastante distintos: 130 km, 100 km e 65 km.

A variedade de distâncias é precisamente uma das grandes vantagens deste formato. Não é necessário começar pelos 130 km para “fazer um granfondo”. Escolher o Mediofondo ou Minifondo pode ser uma forma muito mais inteligente de entrar neste tipo de evento, perceber como o corpo reage a várias horas de esforço e só depois aumentar a distância.

Mais importante do que os quilómetros: olha para o desnível

Dois eventos de 100 km podem ser experiências completamente diferentes.

É um erro comum escolher uma prova apenas pela distância e perceber demasiado tarde que o verdadeiro desafio estava escondido no perfil altimétrico.

Antes de te inscreveres, olha para o desnível acumulado, para a duração e inclinação das principais subidas e para a posição dessas subidas no percurso. Uma ascensão longa aos 20 km não tem o mesmo impacto que uma subida semelhante quando já tens quatro horas nas pernas.

Também vale a pena perceber se o percurso decorre em estradas totalmente fechadas ou abertas ao trânsito. Vários granfondos portugueses seguem regras de circulação em estrada aberta, o que significa que participar não elimina a necessidade de respeitar o Código da Estrada. É o caso, por exemplo, do Monção e Melgaço e do Tavira Granfondo.

Treinar a subida é importante, mas aprender a gerir o esforço pode ser ainda mais. Num granfondo, ganhar alguns minutos numa subida inicial não compensa perder muito mais na parte final porque o esforço foi demasiado agressivo.

Os eventos estão a tornar-se experiências, não apenas provas

Outra mudança interessante aparece na forma como alguns eventos estão a ser construídos.

O Gravel Meeting, a 3 e 4 de outubro, em Coruche, não se resume a uma partida e uma chegada. O primeiro dia inclui um Social Ride & Community Experience de cerca de 30 km, enquanto no segundo existem opções competitivas de aproximadamente 80 km com 1.000 m D+ e 140 km com 2.000 m D+. O formato é semi-autónomo, com pontos oficiais de apoio limitados.

Esta combinação entre competição, comunidade e experiência é particularmente compatível com a cultura gravel: o resultado continua a importar para quem quer competir, mas o evento também pode ser uma forma de explorar território e pedalar com outras pessoas.

Para quem escolhe uma prova deste género, a preparação deve incluir algo que num evento tradicional pode receber menos atenção: autonomia. Saber usar o GPS, levar alimentação suficiente, transportar ferramentas básicas e perceber como reparar um furo pode fazer tanta diferença como ter boas pernas.

O BTT de resistência continua muito vivo

Nem tudo é estrada ou gravel.

O calendário de setembro e outubro continua a mostrar muitos formatos de resistência BTT, desde provas de duas ou três horas até maratonas mais longas. A Federação Portuguesa de Ciclismo apresenta várias resistências, provas XCM, Enduro e maratonas nos próximos meses.

A Maratona BTT da Póvoa, a 11 de outubro, por exemplo, permite escolher entre uma Maratona de 70 km e uma Meia Maratona de 45 km.

Mais tarde, de 16 a 18 de outubro, o RACENATURE Castelo de Vide leva o conceito ainda mais longe com um prólogo e duas etapas, navegação por GPS e participação a solo, em dupla ou e-bike.

Para quem vem exclusivamente da estrada, a distância pode novamente ser enganadora. Quarenta e cinco quilómetros de BTT não devem ser comparados diretamente com 45 km em alcatrão. Técnica, piso, desnível e intensidade das acelerações mudam completamente o esforço.

E-bikes começam a aparecer dentro do próprio calendário de eventos

As bicicletas elétricas já não estão apenas associadas ao passeio recreativo.

Várias provas de resistência BTT criaram categorias específicas de e-bike, e eventos como a Ultra Maratona BTT/Gravel do Sor e o RACENATURE Castelo de Vide incluem-nas dentro da estrutura competitiva.

Isso abre os eventos a perfis diferentes de participantes, mas também cria uma questão importante: nunca assumes que uma e-bike é automaticamente permitida. As regras variam bastante. Alguns granfondos de estrada excluem explicitamente bicicletas motorizadas, enquanto outros eventos criam classificações próprias para elas.

O regulamento deve ser uma das primeiras coisas a consultar antes da inscrição, e não algo para descobrir na semana da prova.

Outubro termina com uma das provas de gravel mais relevantes do calendário

Se ainda era necessário um sinal de que o gravel está a ganhar peso competitivo, ele chega a 25 de outubro.

O UCI Alentejo Gravel, em Ourique, integra a UCI Gravel World Series e apresenta atualmente percursos de 119 km e 87 km. A prova reúne atletas federados e não federados e funciona como oportunidade de qualificação para o Campeonato do Mundo de Gravel de acordo com os critérios da UCI.

A UCI Gravel World Series conta em 2026 com dezenas de eventos internacionais e funciona como circuito de qualificação para o Mundial, mostrando que aquilo que começou como uma vertente alternativa do ciclismo está hoje integrado numa estrutura competitiva global.

Ter uma etapa deste circuito em Portugal coloca o Alentejo num contexto muito diferente: o mesmo tipo de estradas rurais e caminhos que tornam a região interessante para pedalar passa também a receber uma competição integrada no calendário internacional.

Então, qual deve ser a tua próxima prova?

Mais do que perguntar simplesmente “estrada ou BTT?”, o calendário atual permite fazer perguntas muito mais interessantes.

Queres trabalhar resistência durante várias horas? Um Granfondo pode fazer sentido.

Queres sair do alcatrão sem entrar imediatamente em trilhos muito técnicos? Talvez o gravel seja a melhor transição.

Preferes técnica, terreno irregular e esforço constantemente variável? Olha para as maratonas e resistências BTT.

E se o objetivo for simplesmente experimentar algo novo, não é preciso escolher logo a maior distância disponível. Uma das tendências mais interessantes do calendário português é precisamente a variedade: Granfondo, Mediofondo, Minifondo, gravel curto e longo, BTT, e-bike, provas por etapas e formatos de resistência coexistem cada vez mais dentro da mesma época.

O ciclismo amador em Portugal já não está a caminhar numa única direção. Está a abrir várias.

E isso significa que provavelmente existe uma prova que combina exatamente com a forma como gostas de pedalar.

Explora as próximas provas de ciclismo no RaceFinder

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